O ano passado foi repleto de intuições para o cinema nacional: cada longa metragem da Globo Filmes; as tentativas do Governo de regulamentar o setor; e o país exportando gente para dirigir remakes de grandes sucessos do terror japonês.
No balanço final, Cinema foi o segundo curso mais disputado da Fuvest, perdendo, se muito, para Medicina, e mesmo os maiores descrentes não podem ignorar um sinal do tamanho das estatísticas do vestibular. Alguma coisa acontece e, seja o despertar da Besta ou um novo Aeon, os moleques estão querendo fazer carreira neste hobby caríssimo da família Salles.
Talvez porque as oportunidades de vídeo se multipliquem: câmeras fotográficas, celulares, palmtops – de repente, tudo filma, como em um filme de espionagem. Até pouco tempo, cinema era sinônimo de película, e as ilhas de edição não cabiam em uma mochila. Quanto mais a imagem se torna uma possibilidade cotidiana, mais seu aprendizado se mostra promissor.
Na América do Norte, as escolas de audiovisual já substituem os famosos MBAs. Podemos fantasiar o dia em que elas tomarão o seu lugar no ensino médio, fundamental, alfabetizante, e por fim consigamos assistir à televisão sem remorso nem medo da indústria, com a serena graça de vigiar e se deixar vigiar. Conforme se acostuma a esse contrato, o homem comum adquire a lucidez de um profissional do ramo.
Por outro lado, a cinefilia ainda é apenas uma tímida modalidade de paixão, e como tal sujeita ao deslumbramento, às afobações e aos acessos de ciúme. O diploma almejado vale tanto quanto um acordo pré-nupcial; depois virá tudo o que ele não explica ou condiciona: anos de júbilo e bodas de ouro, ou quem sabe o divórcio.
Assim, não é surpresa que já existam, nesta mostra, diversos tipos de profissionalismo – desde aquele que tanto orgulha nossas mães até um outro de que só o mais completo amador é capaz. No que é essencial, os estudantes sempre estiveram tão preparados quanto os Grandes, doutores, livre-docentes. Não existe cálculo o bastante para esta emoção diante da qual, não importa a cautela ou os anos de estudo, somos sempre calouros.