CINEMA@casa

Mais uma programação que você não viu, mas pode recriar em casa.

Rolou semana passada, no 8º Fórum Internacional de Software Livre.

* * *

Faz três anos que o Cine Falcatrua começou com suas mostras de conteúdos livres, reunindo obras que buscam alternativas ao direito autoral constituído. No começo, o material era escasso e difícil de achar: a maioria, clássicos em domínio público, documentários ativistas e vídeos experimentais de legalidade disputada. Tudo muito diferente de hoje, quando temos uma cena consolidada pela popularização de repositórios de vídeo online, com direito até a longas-metragens.

O filme de longa-metragem é o formato preferido da indústria cinematográfica. Sua produção sempre esteve intimamente ligada à película, aos grandes estúdios e a um copyright muito restrito. Por isso são tão impressionantes os últimos lançamentos de longas em digital video, independentes e licenciados em copyleft. Sinal de que o circuito de cinema livre está passando por um amadurecimento significativo.

É esse amadurecimento que o Cine Falcatrua pretende explicitar com CINEMA@casa, a mais recente versão das mostras de conteúdos livres, que aponta para a confluência entre os diversos grupos envolvidos nessa cena.

De um lado estão aqueles fãs apaixonados, que se tornam realizadores por um transbordamento do mero ato de consumir. Eles simplesmente fazem as obras que gostariam de ver, e encontram no território desautorizado da Internet o lugar perfeito para compartilhar essas criações com outros autores em potencial.

Se, até pouco tempo, tudo o que podiam era escrever fanfics, hoje eles têm à sua disposição tecnologias equiparáveis às de um pequeno estúdio, o bastante para produzir e espalhar épicos recheados de efeitos especiais.

É o caso de Samuli Torsonnen, que desde 1992 faz pequenas paródias de Jornada nas Estrelas, e ano passado lançou seu primeiro longa-metragem. Star Wreck – O Império de Pirk (Finlândia, 2006) ainda participa da série que Torsonnen começou aos 14 anos e, por mais que seja uma produção complexa, é distribuído da mesma forma que as outras obras do finlandês: livremente, pela rede.

O filme demorou sete anos para ser feito, mas Torsonnen não tem pudores em disponibilizá-lo para quem quiser. Seu maior interesse é que a obra circule. Ele deve saber o que está fazendo – afinal, é pioneiro: seu filme anterior, um média-metragem, também foi lançado na Internet. Isso em 1997.

De lá pra cá, os cineastas profissionais estão aprendendo como isso funciona. Muitos já perceberam que o que se alardeia como pirataria é resultado de um descompasso de produção, e a propagação dos filmes em meio digital é a única forma de superar o minguado circuito dos multiplexes e dos festivais.

Entre os adeptos da première online estão nomes como Michael Winterbottom e Steven Soderbergh, mas também temos um exemplar nacional. Antes que seu Cafuné (Brasil, 2006) tivesse sido exibido em qualquer sala de cinema, Bruno Vianna já o havia colocado na rede.

Em outras épocas e lugares essa atitude poderia significar suicídio comercial, mas ela não deixa de estar em perfeita coerência com o funcionamento da indústria cinematográfica brasileira. Já que a maior parte dos filmes é financiada com dinheiro público a fundo perdido, porque não colocá-los à disposição daqueles que involuntariamente contribuem para sua realização, os próprios espectadores?

A estratégia de Vianna fez com que sua obra atingisse outros níveis não só de circulação, como também criativos: a estrutura das redes p2p possibilitou que Cafuné fosse lançado simultaneamente com a sua versão estendida, que o público pode remixar.

A esses cineastas lúcidos e àqueles consumidores assanhados, um outro grupo se une para compor a cena de cinema livre. É o pessoal mais próximo da máquina; técnicos que se emancipam como artistas conforme a rede faz nós no circuito e os processos de confecção de ferramentas e obras se confundem.

Essa turma é afeita a novas formas de fazer audiovisual, como algoritmos generativos e livecoding, mas também sabe se virar com produções convencionais – naturalmente, redimensionadas. Haja visto o caso de No Oeste, Só Feijão (Áustria, 2006), que Robert Spindler montou usando o Open Movie Editor, programa desenvolvido pelo seu irmão, Richard.

Podemos dizer que, ainda que Richard não esteja nos créditos de No Oeste, ele com certeza teve um papel crucial na produção da obra, assim como Robert deve ter influenciado bastante a interface e recursos do software do irmão.
Essa permeabilidade entre técnicas é comum aos meios digitais. Espectador, programador ou cineasta são mais do que nunca posturas passageiras, formas de estar no circuito, e não papéis estanques. Por isso, nada mais natural do que deixar livre tudo que resulta dessas interações – inclusive essa mostra.

Como em outras programações do Cine Falcatrua, o público está convidado a baixar esses filmes e fazer suas próprias exibições, públicas ou privadas.

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